Guandu é
responsável pelo abastecimento de nove milhões em 12 municípios
Por: FRANCISCO EDSON ALVES
Rio - Na última terça-feira, por volta
das 14h, debaixo de um sol de 38 graus, o comerciante Vauter Soares, de 36
anos, cumpria uma rotina que não muda há dois anos: carregava nas costas um
galão de água cedido por um vizinho que tem poço artesiano, no bairro Prados
Verdes, em Nova Iguaçu. Suas torneiras estavam secas, como ocorre praticamente
todos os dias, há meses.
“É uma situação humilhante e inexplicável. Não dá para
entender porque a minha casa (na esquina da antiga Estrada Rio - São Paulo com
Estrada Francisco Amorim Viana) e dos meus vizinhos, a menos de trinta passos do
muro da Estação do Guandu, do outro lado da rua, nunca tem abastecimento
regular. É como viver num árido sertão de frente para um rio caudaloso. Parece
piada, mas é nossa dura realidade”, desabafa Vauter.
Na mesma situação está boa parte dos mais de 50 mil
moradores da localidade, onde a maioria dos consumidores quer regularizar suas
ligações junto à Cedae. No entanto, as negociações não avançam. Procurada, a
empresa informou que está investindo para resolver o problema da falta de água
na região, que se agrava com a falta de chuvas e o forte calor.
Pesquisa do Instituto Climatempo revelou que com uma
temperatura média de 36,9 graus, o Rio é a capital mais quente do país neste
verão, superando, pelo segundo ano consecutivo, cidades historicamente mais
quentes, como Teresina (PI) e Cuiabá (MT). “Na Baixada não é diferente. O
inferno é o mesmo. Todos os dias eu tenho que levar 200 litros de água do
meu trabalho para casa, num tambor acoplado a uma carroça de ferro que fiz.
Desde o ano passado, só cai um palmo de água encanada na minha caixa a cada 24
horas”, ressalta o mecânico Sérgio Domingues, 52, morador da Rua Marcelino,
paralela à de Vauter.
No mesmo bairro Prados Verdes, a 150 metros da Estação do
Guandu, a direção do colégio particular Professor Santana, para não fechar as
portas este ano, mandou perfurar um poço no pátio da unidade. “Vamos conseguir
agora encher duas caixas de mil litros por dia. Mas a qualidade da água não é
boa. Só vai servir para limpar banheiros e salas de aula”, diz Sebastião
Palagar, 50, funcionário da instituição, que tem 150 alunos.
Hospital teve que cancelar cirurgias
A crise hídrica, além de escolas, também afeta hospitais. Em
Nova Iguaçu, o Hospital Geral da Posse teve que suspender, na segunda-feira,
quatro cirurgias programadas (eletivas) por conta da falta d’água. As operações
foram feitas ao longo da semana. Parentes denunciam ainda que pacientes estão
ficando sem higiene adequada.
Em São João de Meriti, poços artesianos têm sido a solução
para muita gente. “Juntamos R$ 4 mil e mandamos abrir um poço de 40 metros de
profundidade. Há oito meses não temos água da Cedae, que também parou, pelo
menos, de nos mandar contas”, afirma Jorgenete dos Santos, de 59 anos. Ela mora
numa das dez casas de uma vila na Rua Nilópolis, no bairro Éden.
O desespero e a revolta pela falta d’água estão se
traduzindo em protestos. Em Magé, por exemplo, moradores do bairro Barbuda e
adjacências interromperam semana passada, por dois dias, o trânsito na BR-493
(Magé/Manilha), ateando fogo em barricadas. “São dois meses sem água tratada”,
diz Juliana Santos, 27, que mora com a filha, Ana, 6, às margens da rodovia.
Cedae garante melhorias
Questionada, a Cedae não explicou porque motivo moradores
que residem no entorno da ETA Guandu não recebem água regularmente. Em nota, a
direção da empresa informou que o novo presidente, Jorge Briard, recebeu
recomendação expressa do governador Luiz Fernando Pezão para solucionar o
problema da escassez de água na Baixada, por meio dos projetos Água para Todos
e Guandu 2, duas de suas principais promessas de campanha.
Só para o Guandu 2, Pezão já assinou junto à Caixa Econômica
Federal empréstimo no valor de R$ 1 bilhão, correspondente à operação de R$ 3,4
bilhões para a construção do novo sistema, que vai produzir água suficiente
para mais três milhões de habitantes.
Além de um novo reservatório de 57 milhões de litros e linha
de recalque (que abastecerá o reservatório), os recursos serão destinados à
construção, em diversos municípios da Baixada, de 17 novos reservatórios e
reforma de outros nove que hoje estão fora de operação. Dezesseis elevatórias
de grande porte e assentamento de 95 quilômetros de adutoras,
mais 760 quilômetros
de troncos e rede distribuidora, sairão do papel.
A Cedae informou ainda que concluiu obras
importantes nos últimos anos, entre elas, a interligação de adutoras e
construção, recuperação e melhoria operacional de pelo menos 15 reservatórios
em várias cidades da região, entre as quais, São João de Meriti, Nova Iguaçu,
Nilópolis e Caxias.
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